Do PIX da Extorsão ao Terno de Brasília: O elo secreto entre o crime que...
Publicado em 02/12/2025 19:46 hrs
Fonte: Assessoria - Em ARTIGOS - 06/01/2026 13:47:00
O ABISMO DO RELATIVISMO: Como o fim da Verdade Objetiva desarmou a Justiça e armou o Crime
Nos artigos anteriores, exploramos a anatomia da alma segundo a Escolástica e como a Escola de Frankfurt operou uma lobotomia na vontade moral do cidadão brasileiro. Contudo, para que essa desconstrução fosse eficaz, era necessário destruir primeiro o próprio conceito de Verdade. Se a educação integral visava adequar o intelecto à realidade (adaequatio rei et intellectus), a educação moderna optou por ensinar que a realidade é uma construção subjetiva. Ao matar a Verdade no coração da escola, o Brasil assinou a sentença de morte da sua própria Segurança Pública.
O Relativismo Epistemológico: A Escola como Fábrica de Dúvida
O relativismo epistemológico é a crença de que não existe uma verdade universal, mas apenas "perspectivas" ou "narrativas". No ambiente escolar brasileiro, isto traduziu-se na substituição do ensino factual e lógico por uma dialética de opiniões constantes. Quando um professor afirma que "cada um tem a sua verdade", ele não está a promover a tolerância; ele está a destruir a bússola intelectual do aluno. Sem um Norte fixo, o intelecto perde a sua função primordial: reconhecer a ordem do real e os limites da ação humana.
Esta dissolução da verdade começa na negação da lei natural, um pilar da doutrina cristã tradicional. São Tomás de Aquino explicava que a lei humana deve ser uma derivação da lei natural, que por sua vez participa na lei eterna de Deus. Ao ensinar ao jovem que os valores morais são meros "frutos da cultura" ou "imposições de classe", a educação moderna remove o fundamento sagrado da honestidade. O aluno deixa de ver o roubo como um mal intrínseco e passa a vê-lo como um "comportamento socialmente reprovado, mas justificável" conforme as circunstâncias.
O impacto disto no cidadão comum é devastador. Se a verdade é relativa, a obediência às leis de trânsito ou o respeito por uma vaga de estacionamento tornam-se opcionais, dependentes da conveniência do momento. O relativismo cria uma névoa mental onde o indivíduo se sente no direito de criar a sua própria ética privada. Este "egoísmo lógico" é o solo onde brota o jeitinho brasileiro: a convicção de que a minha necessidade subjetiva é superior à regra objetiva.
Além disso, o relativismo retira ao professor a autoridade de ser o portador de um conhecimento superior. Se todas as opiniões têm o mesmo valor, o aluno não precisa de se esforçar para se elevar à Verdade; ele espera que a Verdade se baixe ao seu nível de ignorância. Este achatamento intelectual impede a formação de líderes e estadistas, produzindo, em vez disso, técnicos qualificados em retórica vazia, capazes de justificar qualquer erro através de sofismas sofisticados.
Por fim, o relativismo epistemológico desagua num niilismo passivo. Se nada é verdadeiramente verdadeiro, nada vale realmente o sacrifício. Uma sociedade que não acredita em verdades pelas quais vale a pena morrer — como a Pátria, a Honra ou a Justiça — é uma sociedade que se ajoelhará perante o primeiro criminoso que lhe aponte uma arma. A segurança começa na certeza intelectual de que o Mal é Mal e deve ser combatido; o relativismo é a anestesia que nos impede de sentir a dor da nossa própria destruição.
A Justiça como "Vontade do Mais Forte": De Trasímaco às Facções
No Livro I da República de Platão, o sofista Trasímaco lança uma tese tenebrosa: "A justiça não é outra coisa senão a conveniência do mais forte". A educação clássica foi construída para refutar este erro, provando que a Justiça é uma ordem objetiva a que todos, inclusive os reis, devem submeter-se. No entanto, ao abraçar o relativismo moral sob influência da Teoria Crítica, o sistema educacional brasileiro reabilitou Trasímaco. Se não há Verdade, a Justiça deixa de ser um ideal transcendental e passa a ser apenas um jogo de poder.
Esta percepção é clara no crime de colarinho branco. O político corrompido ou o empresário que frauda licitações não vê a Justiça como uma barreira moral, mas como um obstáculo técnico a ser contornado. Para ele, as leis são "narrativas jurídicas" que podem ser manipuladas por advogados caros. Quando a escola ensina que a lei é apenas um instrumento de opressão de uma classe sobre outra, ela fornece o álibi perfeito para o corrupto: ele não se sente um pecador ou um criminoso, mas um jogador que conhece melhor as regras do jogo.
A mesma lógica alimenta as facções criminosas nas periferias. Na ausência de uma Verdade Moral ensinada e vivida, a "Justiça do Crime" impõe-se pela força. O tribunal do tráfico é a versão mais crua do pensamento de Trasímaco: quem tem o fuzil dita o que é justo. O jovem que nunca foi educado na objetividade das Virtudes Cardeais aceita a autoridade do crime porque ela é a única que parece sólida num mundo onde tudo é relativo e fluido.
O cidadão comum, por sua vez, torna-se cúmplice desta desordem ao adoptar uma postura puramente utilitária. Ele critica a corrupção em Brasília, mas defende o "direito" de subornar o guarda ou de comprar produtos contrabandeados. Como ele foi educado para acreditar que a justiça é relativa à sua situação financeira ou social, ele cria uma "justiça de conveniência". Este egoísmo conectivo corrói as instituições por dentro, transformando o Estado num grande latrocínio, como advertiu Santo Agostinho.
Richard Weaver, em As Ideias Têm Consequências, afirmou que a perda da crença em universais leva inevitavelmente à desintegração social. Sem o "sonho metafísico" de uma Justiça que nos transcende, o Brasil transformou-se numa arena de vontades em choque. A polícia tenta prender, mas o sistema solta; a lei diz uma coisa, mas a interpretação diz outra. Esta esquizofrenia institucional é o fruto direto de uma educação que decidiu que a Verdade era uma prisão da qual precisávamos de ser "libertados".
A Mentira como Ferramenta de Poder e o Fim da Palavra Empenhada
O relativismo destrói o Logos — a palavra que carrega sentido e verdade. Na educação clássica, a Gramática e a Retórica serviam para que o homem pudesse expressar a verdade com clareza. Na educação moderna, influenciada pela "desconstrução" e pelo pragmatismo, a linguagem tornou-se uma ferramenta de manipulação. Quando a verdade morre, a mentira deixa de ser um vício moral e passa a ser uma "estratégia de comunicação".
Este fenómeno é visível na retórica política brasileira, onde a "palavra empenhada" não vale o papel em que é escrita. O cidadão comum habituou-se a ser mentido e a mentir. Mentir no currículo, mentir na declaração de impostos, mentir para obter uma vantagem imediata. Georges Bernanos observava que a civilização moderna é uma conspiração contra a vida interior, e essa conspiração baseia-se na substituição do carácter pela aparência. Se não há verdade objetiva para honrar, a única coisa que importa é "parecer" bom, ou "parecer" honesto.
Nas facções criminosas, a mentira e a dissimulação são elevadas a tácticas de guerra. O crime organizado floresce onde a confiança social apodreceu. E a confiança só existe onde há o pressuposto de que a Verdade é um valor absoluto. Ao educarmos gerações no relativismo, destruímos o tecido de confiança que sustenta a segurança pública. Um povo que não acredita na Verdade não consegue produzir testemunhas corajosas, juízes íntegros ou polícias incorruptíveis em larga escala.
O egoísmo imediatista do cidadão que vende o seu voto é a manifestação final deste divórcio com a Verdade. Ele sabe que a promessa do político é mentirosa, mas aceita-a porque ele próprio já não acredita na possibilidade de um governo baseado na Verdade e no Bem Comum. Ele resume a sua existência a suprir as suas vontades materiais, ignorando que a liberdade política e a segurança pessoal são impossíveis numa terra onde a mentira se tornou o idioma oficial das relações sociais.
A san doutrina cristã ensina que o Diabo é o "pai da mentira". Ao expulsar a busca pela Verdade Divina das escolas e substituí-la pelo relativismo acadêmico, o sistema educacional abriu as portas para uma influência diabólica na cultura: a inversão de valores onde o criminoso é "vítima" e o cidadão de bem é "opressor". Esta mentira institucionalizada é a maior barreira contra qualquer reforma real na segurança pública brasileira.
O Resgate da Verdade: A Reconstrução da Ordem Intelectual
Para que o Brasil deixe de ser uma "Nação Inacabada" e armada contra si mesma, o primeiro passo não é a compra de mais armas, mas o resgate do Realismo Epistemológico. Precisamos de voltar a ensinar que a realidade existe independentemente do que achamos dela e que o nosso dever é conhecê-la e respeitá-la. A educação deve voltar a ser uma busca pela Verdade, e não uma validação de sentimentos subjetivos ou ideológicos.
Isto exige uma ruptura com a herança da Escola de Frankfurt e um retorno à pedagogia das virtudes. Como dizia C.S. Lewis, não podemos continuar a produzir "homens sem peito" e esperar deles honestidade. O intelecto do aluno deve ser treinado na Lógica rigorosa, para que ele saiba detectar o sofisma do corrupto e a falácia do criminoso. Ele deve aprender que a Verdade é o que nos liberta — não apenas no sentido teológico, mas no sentido prático de nos libertar da escravidão dos nossos próprios apetites egoístas.
A segurança pública começa na honestidade intelectual de reconhecer que o crime é uma violação da Ordem Natural. Quando a escola ensina que 2+2 são 4, ela está a lançar os alicerces para que o cidadão entenda que o Mal é um facto e que a Justiça é uma necessidade objetiva. O cidadão comum precisa de ser reeducado para entender que o seu "jeitinho" é a semente da impunidade que ele tanto critica. A ordem na rua é o reflexo da ordem nas mentes.
Este resgate da Verdade traria de volta o conceito de honra. Um homem que acredita na Verdade prefere sofrer uma injustiça a cometê-la. Ele prefere a pobreza honesta à riqueza corrupta porque sabe que a sua alma está ligada a algo eterno. É este tipo de homem — o homem integral da Escolástica — que é verdadeiramente imune à sedução do crime. Sem ele, qualquer plano de segurança será apenas uma solução temporária num edifício que desaba.
Concluímos este artigo com a certeza de que a crise da segurança no Brasil é, acima de tudo, uma crise de fé na Verdade. Enquanto a nossa educação for um laboratório de relativismo e egoísmo, as nossas ruas serão o cenário da nossa falência moral. A reconstrução da nação passa pela coragem de apontar para o Alto e reafirmar, com Santo Tomás e com os clássicos, que a Verdade existe, ela é uma só, e dela depende a nossa paz.
Referências Bibliográficas
AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus. Tradução de Odilão Moura. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2012.
AQUINO, Santo Tomás de. Suma Teológica. Tradução de Carlos-Josaphat Pinto de Oliveira. São Paulo: Loyola, 2001.
BERNANOS, Georges. A França contra os robôs. Tradução de Alexandre Müller Ribeiro. São Paulo: É Realizações, 2010.
LEWIS, C. S. A Abolição do Homem. Tradução de Martins Fontes. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2017.
PLATÃO. A República. Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira. 9. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.
WEAVER, Richard M. As Ideias Têm Consequências. Tradução de Guilherme Ferreira Araújo. 4. ed. São Paulo: É Realizações, 2012.
Autor: Clodomar Rodrigues - Coronel da Policia Militar do Estado de Rondonia
Comandante Regional de Policiamento II
Publicado em 02/12/2025 19:46 hrs
Publicado em 12/11/2025 11:55 hrs